O Paradoxo de Simpson

  • 06 de out

O Paradoxo de Simpson

  • Fernando Amaral


Todo mundo já ouviu que correlação não é causalidade. É a primeira falha do raciocínio baseado em dados, e quase todos a reconhecem. Mas existe uma segunda, bem mais traiçoeira, às vezes a própria correlação muda de sinal dependendo de como você olha para os dados.

Antes de continuar, um aviso: raciocinar com atalhos não é pecado. Eu mesmo faço isso o tempo todo, porque pensar de forma eficiente também importa. Mas é bom saber onde o atalho quebra.


credito: https://epiren.medium.com/when-things-arent-what-they-seem-simpson-s-paradox-d3c3e5fdd6cf


Um exemplo:

Você junta dados de estudantes e plota horas de estudo × nota. A linha desce: quanto mais se estuda, menor a nota. Conclusão óbvia: "estudar demais atrapalha"?

Agora separe os mesmos dados por nível de dificuldade do conteúdo (básico, intermediário, avançado). Dentro de cada nível, a linha sobe: mais estudo, nota maior.

Os dois gráficos estão corretos. O que aconteceu é que quem estuda por muito tempo geralmente já está em conteúdos mais difíceis, e conteúdos difíceis rendem notas menores. A dificuldade cresce junto com as horas de estudo e puxa a média geral para baixo. Misturando tudo, ela esconde o efeito real do estudo.


Isso é o Paradoxo de Simpson

Com exatamente o mesmo conjunto de dados, a estatística sustenta duas conclusões opostas:

  • "O grupo X=1 tem mais chance de Y do que o grupo X=2"

  • "O grupo X=2 tem mais chance de Y do que o grupo X=1"

Qual das duas você enxerga depende de qual terceira variável você decide fixar. Os números não erram, a interpretação é que pode errar.

Não é teoria. Em 1973, Berkeley parecia admitir proporcionalmente mais homens do que mulheres. Ao olhar departamento por departamento, Bickel, Hammel e O'Connell (1975) mostraram que as mulheres tinham taxas iguais ou melhores na maioria deles. Elas apenas se candidatavam mais a cursos muito concorridos.


Então qual gráfico está certo?

Os dados sozinhos não respondem. Segundo Judea Pearl (2014), quem decide se devemos olhar o dado agregado ou segmentado é o modelo causal: se a terceira variável influencia as duas grandezas comparadas, ela precisa ser controlada. Se for consequência delas, controlá-la pode ser o erro. É preciso entender como o mundo funciona, e isso nenhuma tabela entrega sozinha.

Como se proteger

  1. Desconfie de médias agregadas quando existirem subgrupos naturais.

  2. Pergunte: o que mais muda junto com isso?

  3. Segmente, mas com um modelo causal em mente, não no automático.

Resumo

Ser "data-driven" é fácil. Ser data-driven sem cair em armadilhas pode dar trabalho.


Referências

  • Simpson, E. H. (1951). "The Interpretation of Interaction in Contingency Tables." Journal of the Royal Statistical Society, Series B, 13(2), 238–241.

  • Yule, G. U. (1903). "Notes on the Theory of Association of Attributes in Statistics." Biometrika, 2(2), 121–134.

  • Bickel, P. J.; Hammel, E. A.; O'Connell, J. W. (1975). "Sex Bias in Graduate Admissions: Data from Berkeley." Science, 187(4175), 398–404.

  • Pearl, J. (2014). "Understanding Simpson's Paradox." The American Statistician, 68(1), 8–13.

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